Crónica

E poderia dizer: crianças do mundo, esqueçam o drama, larguem as lágrimas; o amor não é o sofrimento, o amor é a tentativa de o vencer – a única hipótese de o vencer.

Há pessoas que nos tiram anos; há pessoas que no-los devolvem.

É uma frase que já oiço há algum tempo e que sempre me ressoou com sentido, mas, como tudo na vida, creio que só quando provei o seu significado na pele lhe compreendi realmente os contornos. Isso implicou sofrer, claro – como toda a aprendizagem, discutivelmente. A parte boa é que, por definição, também implicou o final desse sofrimento.

Em Fevereiro, visitei, no seu último dia em Portugal, uma exposição lindíssima: “7 Mil Milhões de Outros”. Tratava-se de uma colecção de testemunhos de milhares de pessoas de literalmente todo o mundo, gravadas em vídeo e organizadas por tema. Como eterna – ainda que atípica – romântica que improvavelmente sou, a sala do Amor foi uma que, logo à partida, fiz questão de visitar. O seu conteúdo desiludiu-me: eram abundantes as histórias tradicionalmente amargas e sofridas de casamentos arranjados, e raríssimas todas as outras (compreendo a necessidade da intenção de transmitir uma mensagem muito específica ao mundo ocidental sobre os funcionamentos mais sombrios, mas, confesso, senti falta das águas mansas). No entanto, um testemunho em particular, de características raras no conjunto – irónica e tristemente, por ser feliz –, falou muito directamente comigo: o de uma jovem mulher sueca que, após breve reflexão, constatava com firmeza que é preciso crescer para aprender a valorizar quem é bom para nós. Só isso. “Bom”.

O amor pelos bad boys, a paixão pelas almas torturadas e o desejo de mudar destinos condenados são, acredito, parte do processo normal de desenvolvimento emocional de quase todas as raparigas. Não lhes fui imune, conheço poucas que o tenham sido – e ambos estes factos me levam a coçar um pouco a cabeça e ficar calada sempre que o famoso dogma surge em conversa: “as raparigas amadurecem muito mais cedo do que os rapazes”. Talvez, se os homens só o forem aos 40 – mas creio e espero não ser a primeira portadora de más notícias quando afirmo que, na adolescência, a estupidez toca a todos, independentemente do número de cromossomas X. Valorizar alguém que é bom para nós porque é bom para nós é algo aprendido, não automático – uma pequena e perdoável falha no conjunto tão admirável de instintos de sobrevivência com que todos, nesta espécie e nos padrões da chamada normalidade, tendemos a nascer. Porque ser frio é sexy, e ser calado é intrigante, e há sempre uma razão para ele nos ter tratado mal: uma razão que, com o poder mágico do amor, podemos – e nos cabe – mudar, ainda que apenas no que nos diz respeito (na verdade, melhor ainda se apenas no que nos diz respeito!). Perceber a enormíssima treta de tudo isto requer subir muito alto e cair muito fundo: por vezes, fundo demais para conseguir vir à superfície de novo; por outras, e nunca sem sorte, apenas fundo o suficiente para apreciar quem nos dá a mão e nos ajuda a construir a força para nos levantarmos de novo – sim, porque é igualmente importante reconhecer o nosso papel basilar no processo, já que também nós, como os bad boys, estamos para lá da salvação externa por cavaleiros andantes.

Não é segredo para ninguém que se considere meu amigo, ou que simplesmente me leia, que a minha dança com a infelicidade existiu, se arrastou, e me deixou a sentir-me para lá de qualquer cura. Como as princesas ingénuas das histórias infantis, e apesar de nunca me ter considerado uma, só me soube alvo do feitiço quando já era tarde demais: quando, da dança, restávamos apenas eu e o meu assassino, rodopiando ao som de nenhuma música sobre os destroços do que um dia haviam sido a minha dignidade, a minha confiança, a minha entrega irreflectida por corromper. Quando o choque com a realidade tirou o véu ao sonho e o revelou pesadelo, a dor foi maior do que a imaginação poderia ter permitido prever – a dor do sofrimento objectivo em si, sim; a dor do final de qualquer coisa, que, em pessoas como eu, existe sempre; mas, acima de tudo, a dor da perda da inocência, da perda de mim – do quebrar do meu núcleo mais meu, que até aí se mantivera virgem à noção de que, se é verdade que não há ninguém puramente bom ou mau, é, no entanto, pelo menos igualmente verdade que há pessoas más para nós: más para mim. No fundo, o pesar incontornável de me sentir traída – não por uma outra pessoa, que talvez nunca tenha querido ver sob a luz certa, mas por mim própria, que, impávida e serena, assisti, simultaneamente impune e inacreditavelmente punida, ao meu próprio massacre.

Não difamo gratuitamente, e ainda acredito que, para tudo neste universo, há mais complexidade do que um atirar de moeda ao ar com um simples “mal” ou “bem” em cada lado. Hoje, porém, já não faço questão de conhecer as duas faces – de compreender a sua complexidade, ou sequer de a aceitar. Saí do final da primeira metade da suposta melhor década da minha vida a sentir-me menos e menor, de todas as formas. A ideia de nunca mais conseguir amar, ou entregar-me com a genuinidade que sempre me caracterizara, ainda que racionalmente improvável, apresentava-se como uma certeza na minha alma – a mais aterradora de todas. Não sentir – o pesadelo final; a última pedra da solidão; a maior encarnação do medo. E, para todos os efeitos, os longos meses que se seguiram não fizeram mais do que confirmar essa tese – a de que a espontaneidade ficara sob os destroços daquela inocência de amar que só agora, que a perdera, sabia que um dia tivera; de que a intimidade era uma quimera morta na praia, já mais sonho do que memória; de que gostar não mais passava de ver o tempo correr à sombra de navios inalcançáveis e perdidos à partida – navios apenas de outros, feitos por e para outros e por eles levados.

Há pessoas que nos envelhecem.

Mas os milagres, afinal, acontecem – não os de deus, mas os nossos. Sempre me considerei uma pessimista realista – talvez hiperrealista –, e se, há um ano, alguém tivesse insinuado que o meu actual presente ainda me poderia acontecer (e, provavelmente, alguém insinuou), eu não teria sabido escolher entre rir e chorar. Nunca acreditei mais em amor à primeira vista do que em deus – mais importante do que isso, naquela altura, não acreditava em mim –, e, no entanto, hei-lo aí, ou o seu mais próximo semelhante, e eis-me agora, rejuvenescida, mais nova do que quando caí; mais nova do que nunca. Porque tão certo como a existência de cada lado da medalha é o seu reverso, e sim – há pessoas que nos devolvem.

Hoje, a simplicidade da bondade não é perdida em mim. A paz da intimidade verdadeira, aquela em que não temos de tentar ser mais do que nós próprios a cada segundo da nossa existência partilhada, é o raríssimo alimento dos mais sortudos com que agora preencho os meus dias; a monotonia da rotina revela-se-me, finalmente, como a bênção que é. E poderia dizer: crianças do mundo, esqueçam o drama, larguem as lágrimas; o amor não é o sofrimento, o amor é a tentativa de o vencer – a única hipótese de o vencer. Mas, tal como o foram em mim, estas frágeis palavras seriam perdidas nelas como folhas de Outono em vento de Inverno; pois, como tantos outros códigos secretos desta tão vasta humanidade, só a sangue as podemos escrever e com sangue as ler; só depois do crime cometido elas nos aparecem decalcadas e decifráveis no embaciar do espelho, pista para a solução, privilégio para quem, no final, ainda se olha – para quem ainda se atreve a olhar-se.

Por vezes, temos de nos perder para nos encontrar. Hoje, a gratidão.

Anúncios