Título Original: The Complete Stories
Título em Portugal: Contos Completos
Autor(a): Truman Capote
Ano de Publicação: 2004
Edição: Penguin Classics, 2005
Colecção: Modern Classics
N.º de Páginas: 320
Encadernação: Capa Mole
Preço: €13,63 (Book Depository)

  Classificação: 10/10 (Extraordinário)  

Um manipulador mestre da língua inglesa como nunca li nenhum […], e cuja versatilidade, até hoje, me surge também como incomparável, Capote é um daqueles autores de quem não basta ler uma coisa: é preciso beber tudo, saber tudo; porque é tudo tão bom, e é tudo tão belo, e custa tudo tão pouco a entrar: mesmo a tragédia, mesmo o mistério, mesmo a tristeza.

Não tenho escrito muitas críticas para este blog. O principal motivo para isso é a falta de tempo – para ler, sim, mas também para tecer as críticas propriamente ditas, dado que há um nível de qualidade que me esforço por manter. O outro é o facto de que, infelizmente, raramente uma obra me inspira a isso. Sim; apesar do meu curto tempo nesta Terra, a verdade é que já li muitos, muitos livros, e, hoje em dia, sou praticamente uma velha céptica: extremamente difícil de impressionar, e quase impossível de arrebatar. Com isto dito, e creio que isto diz quase tudo, esta é a segunda vez que, num ano muito complicado a nível de disponibilidade, Truman Capote consegue o feito de me obrigar a vir aqui dizer qualquer coisa.

Redijo esta apreciação depois de já ter lido Travessia de Verão, Breakfast at Tiffany’s e Other Voices, Other Rooms, assim como visto (e chorado com) a aclamada versão de Hollywood da vida de Capote, com a representação brilhante de Philip Seymour Hoffman – e, neste ponto, posso dizer que, com este homem, o que custa mesmo é escolher. Após demorada e hercúlea reflexão, porém, confesso que, no auge das delícias das minhas papilas literárias e nos meus melhores sonhos, é mesmo como contista que Capote emerge: e a capacidade deste senhor tão polémico, de aspecto insignificante e integridade questionável, de se colocar na pele de tantas personagens tão diferentes, e de as encarnar na perfeição – do maior ao mais ínfimo pormenor, desde a pronúncia redigida à maturidade adaptada do discurso e ao encadeamento do raciocínio –, nunca cessa de me surpreender.

Não cessou nem por um segundo, certamente, ao ler este delicioso The Complete Stories – uma colectânea que afirma juntar todos os contos de Capote, a maioria deles redigida na década de 40, no início da sua carreira: visto que, infelizmente, este foi um formato que o autor (praticamente) abandonou muito cedo. Também eventualmente desmamado foi, leio e parece-me, o estilo “gótico sulista” de que se recobrem a maioria destas histórias, de forma muito reminiscente do quase contemporâneo Other Voices, Other Rooms: a sua outra obra que, neste momento, compete para o pódio das minhas preferências.

Há, de facto, dois homens em Capote, tanto biográfica como bibliograficamente falando (afinal de contas, nele, a sobreposição entre as duas coisas é gigante): a criança ingénua, sofridamente doce e quase “Pessoanamente” nostálgica do sul dos Estados Unidos, e o adulto simultaneamente desvairado, desencantado e inteiramente perdido da alta sociedade de Nova Iorque. Também a linguagem – rica e cheia de cores, cheiros e sabores quase palpáveis num; de lógica fria e implacável, parca e poupada no outro – acompanha este “crescimento” (se assim se pode chamar ao avançar natural e irreversível de uma vida que, neste caso, terminou num terrível, ainda que escolhido, precipício), e eu, a ter de escolher, sou francamente parcial ao primeiro. Não que Capote seja um mau crítico mordaz da vida nova-iorquina, antes pelo contrário; Summer Crossing, Breakfast at Tiffany’s e os poucos contos dessa temática presentes na compilação em análise, mais do que sofríveis ou aceitáveis, são, todos eles, excelentes e recomendáveis. O que se passa é que, em Capote, a fasquia é muito alta: e, portanto, se o seu pior é muito bom, o seu melhor é de outro mundo. Da maneira como o vejo, o Capote sulista é o melhor Capote.

Não exagero quando friso e sublinho – não posso mesmo dizê-lo vezes suficientes – que ler este homem é de uma fluidez extraordinária, muito para lá de (quase) qualquer outra experiência literária que alguma vez tenha tido. É estranho, conhecendo os vários testemunhos externos da personalidade de Capote (como a transmitida pelo filme supramencionado, por exemplo – que, por sua vez, é baseado na mais conceituada biografia do autor, da autoria de Gerald Clarke), e vendo algumas das suas entrevistas à televisão, conceptualizar que alguém aparentemente tão fútil e autocentrado conseguisse ter uma visão tão transcendente da vida e das pessoas, e observar ambas com tanta atenção que as mimetizações e encarnações resultantes são quase assustadoramente reais. A verdade, no entanto, é que conseguia, e conseguiu: e estes contos são, na minha opinião, um exemplo especialmente claro disso.

É-me difícil, se não impossível, apontar um único conto como favorito nesta colecção. Se tivesse de o fazer, talvez devesse a mim própria, e ao meu íntimo em tudo nostálgico e melancólico, escolher “A Christmas Memory“, assim como os outros dois contos, centrados nas mesmas personagens, com os quais este forma uma espécie de trilogia solta: “The Thanksgiving Visitor” e “One Christmas“. Não sei se apenas porque tocam em cantos e memórias muito bem guardados de mim, se porque a sua doçura arrebatadora é verdadeiramente universal, estes foram pedaços de papel que bebi com um prazer quase físico. Num tom em tudo diferente – misterioso, surreal e perturbador –, “Miriam” e “Master Misery” são, também, paragens obrigatórias: o último, em particular, é um estudo filosófico riquíssimo, recheado de frases que apetece guardar e partilhar em toda a parte.

É-me também difícil, depois desta leitura, não comparar Capote a outros contistas de renome e que tanto adoro, como Somerset Maugham. Novamente, peçam-me para escolher e, neste momento, não creio que consiga. Maugham é um veterano, um atirador certeiro quase perfeito, onde nada falha e a mensagem atinge invariavelmente o alvo. Capote perde-se um pouco na criação da atmosfera: a mensagem tende a ser secundária, ou até, em alguns casos, difícil de discernir; os seus finais raramente são arrebatadores, ou sequer especialmente fortes (talvez este seja o maior defeito que lhe posso apontar, quer em conto, quer em romance). No entanto, parece-me que isso acaba por não importar: depois de beber de um poço tão rico, de mergulhar em emoções e sensações tão assombrosamente íntimas e inteiras, ingrato será o viajante que se queixar da falta de um motivo.

De uma mestria e versatilidade inigualáveis na manipulação da língua inglesa (resta saber se as traduções para português conseguem fazer, sequer, um mínimo de justiça ao seu rico estilo sulista…), Capote é um daqueles autores de quem não basta ler uma coisa: é preciso beber tudo, saber tudo; porque é tudo tão bom, e é tudo tão belo, e custa tudo tão pouco a entrar: mesmo a tragédia, mesmo o mistério, mesmo a tristeza. Tal como a literatura deve ser.

  • Classificação: 10/10 (Extraordinário)
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