Crónica

Impacientes, preguiçosos, irritantes, desligados, hiperactivos, intolerantes, complexados, arrogantes – somos o que somos. Nascemos, vivemos seis segundos, morremos, as pessoas que se lembram de nós morrem, o mundo morre, fim, adeus. Todos somos alguma coisa – e, com sorte, nesses seis segundos, conseguimos escolher o que aqueles de quem nos rodeamos são.

Durante muito tempo, não reparei no padrão. É normal: estava a crescer. As crianças não pensam muito nas coisas; é por isso que são crianças. É também por isso que há crianças grandes. De qualquer maneira, não reparei logo no padrão: ou melhor, não notei, sequer, que existia um. Foi perto do final da adolescência que me comecei a aperceber de como as pessoas iam morrendo à minha volta. Não literalmente – isso também –, mas para mim. Por vezes, nem transparecia: a minha atitude podia, até, manter-se igual. Porém, no meu íntimo mais fundo, a invocação da pessoa, mental ou física, já não provocava as mesmas sinapses. Não era especialmente difícil, também. Os meus padrões sempre foram absurdamente elevados – eu própria nunca me livrei deles –, e era fácil morrer para mim. É fácil morrer para mim. Não se ser a pessoa que eu pensava. Ser-se mesquinho, afinal. Ser-se falso, afinal. Ser-se frio, afinal. Ser-se cobarde, afinal. Não se ser genuíno – não se ser empático – desiludir-me. Ou, claro, magoar-me: e também isso foi sempre algo fácil (muito mais do que podia ou pode parecer). E, assim, as pessoas iam caindo no chão que me rodeava: com maior ou menor sofrimento; com noção disso ou ausência dela. Sim, porque muitos cadáveres meus haverá por aí, na verdade, que não sabem que o são. Hipocrisia? Não. Cordialidade.

Há poucos anos, uma pessoa que acabara de conhecer, uma ligação recente, usou, pela primeira vez, uma expressão para designar este fenómeno, este virar de ondas cuja repetição, nesta altura, eu já principiara a notar, embora ainda não a organizar num sistema: a “quebra do cristal”. Quando o disse, referia-se a uma relação amorosa – as minhas mortes não são, de todo, limitadas a este tipo de laços –, um trauma de perda irreversível de respeito pelo qual ela própria passara, e não fazia ideia, provavelmente, de como me estava a ajudar a conhecer-me melhor.

O que é, então, a quebra do cristal? É aquele momento em que sabemos que nunca mais colocaremos uma pessoa em qualquer tipo de pedestal. Em que percebemos que até podemos ir tomar café com ela, ou ver um filme, mas que nunca mais lhe contaremos como nos sentimos realmente acerca da doença da nossa mãe, nem sairemos do nosso caminho para a ajudar, ou permitiremos que ela o faça para ou por nós. Em que criamos, entre nós e ela, uma distância intransponível, mais ou menos perceptível consoante a sua perspicácia, e nunca mais a vemos da mesma forma. Nem queremos ver. Porquê? Porque não queremos mais nada com ela; porque a ilusão ruiu; porque somos novamente meros ouriços-cacheiros a chocar no trânsito uns dos outros, e a perceber que o melhor, mesmo, é nem circular por aquela estrada. Vingança? Vingança pressupõe intenção. O objectivo não é magoar: não se magoa um morto. Não há objectivo. O oposto do amor não é o ódio. É a mais involuntária, natural e pura indiferença.

Talvez esta seja, em si, uma visão dura. Uma visão tão fria e mesquinha, tão ressentida e picuinhas, quanto as pessoas que a originam (ou, pelo menos, tanto quanto as julgamos). E então? É fácil – fácil, acreditem; diria até que moda, hoje em dia – passar a vida a “tentar ser uma pessoa melhor”. É fácil, porque não passamos todos de um rebanho de falsos modestos, um rebanho de afectados que nunca são tão bons como poderiam ser, e, portanto, o trabalho nunca está terminado – e os trabalhos que nunca terminam, como os mais espertos saberão, são os melhores de fazer, e os mais confortáveis, porque não têm tempo nem padrões: o seu único padrão é existir.

O que é difícil, mesmo difícil, é aceitarmo-nos como somos. No meu caso, neste caso, aceitarmos que o cristal existe, e que se parte, e que não há Super Cola 3 no mundo que lhe disfarce as rachas a seguir. Se isso me torna má pessoa? Por favor, leiam um livro (um cujo título não comece por “B”, tenha seis letras e termine em “íblia”). Impacientes, preguiçosos, irritantes, desligados, hiperactivos, intolerantes, complexados, arrogantes – somos o que somos. Nascemos, vivemos seis segundos, morremos, as pessoas que se lembram de nós morrem, o mundo morre, fim, adeus. Todos somos alguma coisa – e, com sorte, nesses seis segundos, conseguimos escolher o que aqueles de quem nos rodeamos são. O que é, sequer, uma “má pessoa”? E se houver quem pense que o somos – que importa?

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