O chá jazia frio na mesa. Não gostava de chá, mas dizê-lo teria sido demasiado. Gosto dele frio, isso bastaria; sim, isso bastaria. Não gosto dele quente, porque negá-lo por mais do que a temperatura seria rejeitar o homem que o oferecia; seria rejeitá-lo a Ele.

A posição em S, sobre as próprias pernas despidas no sofá, estava longe de ser confortável, mas horas haviam passado sem que ela tivesse dado por isso – horas em que o chá ficara frio sem que ela o bebesse; horas em que, em vez disso, bebera e bebia tudo o que lhe saía da boca, como se de mandamentos em pedra se tratasse, Bíblias e Toras, Alcorões.

Subitamente, inclinou-se. Foi o cessar do som, não o movimento, que o anunciou; para ela, naquele momento, nenhum sentido existia para lá do que lhe processava o ruído, aquele ruído que a preenchia como água de poço no deserto. Isso é um cabelo branco, perguntou-lhe, a voz quase horrorizada a revelar um feminino desconfortável que, confortavelmente, a ela escapava. Estava agora em franco exame da sua fronte, os olhos contraídos por detrás dos óculos intelectuais, e o embaraço que a preencheu foi o de não um, mas mil, um milhão de cabelos brancos – cabelos brancos que não possuía; ou que não sabia se possuía, mas sabia que não queria possuir: não depois daquela voz, não depois daquele tom.

Não sei, balbuciou pautadamente, e ia terminar, teria inventado qualquer coisa, ou assim o esperava, mas ele já parara; o regresso a si mesmo surpreendia-a sempre pela rapidez, mesmo após tantos domingos. Esquece, era o reflexo, disse despreocupadamente, como quem lança cinzas ao vento sem saber que é um coração que solta. Levantou-se, pegou nas chávenas, levou-as sem qualquer comentário – a preocupação com o meio cheio ou meio vazio, também essa era só dela, afinal –, e ela sabia o que ia acontecer; chá, filmes, pizza, concertos, todos não passavam de pretextos de que ele, figura liberal que fosse ou se esforçasse por parecer, parecia necessitar para terminar naquele fim único: ou talvez julgasse que ela deles precisava, e por isso os inventasse. Mas mesmo isso, viria ela a reflectir muito mais tarde, teria sido nele uma atitude rebuscadamente egoísta, manipuladora, porque todas o eram. Naquela altura, porém, ela queria ser manipulada; queria o chá por beber e a TV e os objectos fúteis, e queria ser ela própria um objecto fútil, desde que tocado por ele – desde que para ele fosse útil.

Como ouro as suas palavras, como ouro o seu corpo vinte anos mais velho, porque através dele lhe escorria a mente – e tantos outros líquidos, pensava por vezes de rajada, mas a mente –, e assim ela o aceitava todo, sem que ele se desse sequer a metade: sem que sequer o soubesse fazer. Depois da cegueira, ela viria a perceber que já aí, com tantos anos e livros e sexos de atraso, soubera mais do amor do que ele – talvez porque ainda soubesse querer saber menos de si própria; talvez o amor seja, afinal, a única arte que a vida nos desensina.

Mas não naquela noite. Aquela ainda seria uma das noites em que ela sorveria o ritmo mecânico e desapegado da sua sofreguidão sem ódio ou pudor, sem paixão ou prazer – apenas como quem fornece um copo de água, ou um comprimido, ou uma tela em branco; como uma toalha no seu canto, como uma lufada de ar fresco. E, no final, quando ele terminasse, invariavelmente insatisfeito e invariavelmente inconsciente do direito a existir da satisfação dela – no final, quando ele recusasse beijá-la e simplesmente se deixasse cair sobre o cabedal escuro do sofá desconjuntado e continuasse, admiravelmente, o devaneio sobre si próprio – no final, ela ainda se sentiria sortuda por ser ela, e não outra qualquer, que ele recusava beijar.

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