Um murmúrio no peito, um peso no estômago, fantasmas na cabeça. Quero dizer-te tantas coisas, mas todas as coisas perdem o significado ao serem ditas; tudo o que abre deixa de se ser.

A verdade de mim é verdade porque não há quem a conheça; se alguém a conhecesse, não seria a verdade; só se conhecem versões de mim, aquilo que sobra do processo de filtragem e deformação que a comunicação castrada com que nos amaldiçoaram nos impõe; pequenas e assustadas peças do puzzle, condenadas à partida a não bastar, a não unir.

Quero tanto falar contigo, mas as palavras ficam presas na garganta, morrem antes de nascer. Morrem para que o que as origina não morra. Morrem para que isto que sinto permaneça, para que não se perca nos canais e nos ruídos, no desencanto da constatação, no sujo da interpretação.

Quero tocar-te, então, mas só se também apenas me tocares, só se de ti não tiver mais clareza do que a que te dou de mim; só assim posso saber que percebes e que devolves, que não estou sozinha – e sei-o porque não me estragas com a verdade de ti; de ti e do Sol e da Terra e da inutilidade da vida; sei-o porque não tenho maneira de o saber – e, em não a ter, vive a única esperança de certeza.

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