ficávamos presos
nas ombreiras de portas
porque lá nos encontrávamos e
como crianças a brincar
não compreendíamos isso
esse conceito de largar

e eu ficava, tu ficavas
o tempo a gelar no vidro
a noite a fazer-se dia
o espaço entre nós a desfazer-se mudo
anedótico
nas nossas mãos absurdo

ficavas porque não sabias sair
e eu parava-te amarrava-te puxava-te
para dentro de dentro de mim
e não te deixava aprender
e a única língua era a dos nossos lábios
e se outras havia no mundo
eu não dei conta

e do tempo não mais falo
porque os relógios eram pedra
e nós eternidade contida
num momento sem passado nem futuro
como todos deviam ser

como todos deviam ser

ficávamos em ombreiras de portas
sem entrar nem sair
e lá estamos ainda
a minha imagem verde sombra da tua
presa num qualquer infinito
que não te sabe deixar ir

porque tudo o que estes olhos
se deixaram ver
foi como te fazer ficar
e hoje sei que tudo o que aprendi
tudo o que aprendi
não passa de —

o paraíso é de quem
não o procura

Advertisements