Crónica: «Pedra Filosofal»

Crónica

E poderia dizer: crianças do mundo, esqueçam o drama, larguem as lágrimas; o amor não é o sofrimento, o amor é a tentativa de o vencer – a única hipótese de o vencer.

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Poesia: «Futuro Passado»

Todos os sonhos do que podia ter sido,
Deleites já vividos
Em futuros por desvendar,
Prazeres mandados para o ar,
Sem dúvida ou discussão
Na certeza mais efémera –
A da existência infinita.

Hoje, piso-os com cada passo
Com que pauto o dia-a-dia,
Infância futura perdida
De que só resta o traço,
Espirais de fumo desfeitas
Em mares de sargaço,
Nada mais do que suspeita tortuosa
Na engrenagem incessante da vida –
Sabores por viver para sempre já vividos,
E se, e se, e se,
Tudo o que poderia ser.

Existências imaginadas ao teu lado
Ainda antes de te conhecer,
A casa, o jardim, o gato,
E o cheiro do jantar a fazer
Enquanto nos aguardávamos,
Hoje tu, amanhã eu,
E o tempo sempre livre, e o tempo sempre aberto,
A receber o nosso amor
Como a mãe paciente ao filho pródigo.

O meu emprego em casa,
Os passeios no ar fresco da manhã,
A artista melancólica finalmente balançada
Que fizeste de mim,
A loja simpática que eu teria,
As pessoas que veria passar
Numa azáfama já não minha,
E os lares que habitaria,
Impossíveis paradoxos simultâneos –
De dia, o subúrbio americano;
À noite, o apartamento central –,
E todos os sítios para onde viajaria,
Hoje contigo, amanhã sempre solteira,
A cultivar saudades como flores de estufa.

E a juventude que me brotaria sempre dos lábios,
E a música no gramofone e nas colunas de última geração,
Congelada no mesmo instante,
E os risos, e os amigos, e os jantares e os bares,
E toda a calma, toda a paz do mundo que seria minha,
Finalmente minha,
De alguém que não sou eu.

De alguém que não sou eu.

Crítica: «Travessia de Verão», de Truman Capote

Título Original: Summer Crossing
Título em Portugal: Travessia de Verão
Autor(a): Truman Capote
Ano de Publicação: 2005
Edição: Leya, 2009
Colecção: BIS
N.º de Páginas: 126
Encadernação: Capa Mole
Preço: €5,95 (Fnac)

  Classificação: 8/10 (Muito Bom)  

De frio, afinal, Capote não tem nada, emanando, ao invés disso, a burguesia descritiva do mais delicioso realismo omnisciente do século XIX, mas enquadrando-a na flexibilidade narrativa de um autor do nosso tempo, com toda a fluidez, variedade e ataque à monotonia que isso implica. O Capote que esta curtíssima obra apresenta não cansa, não conseguiria cansar; as pessoas e enredos em que nos envolve são demasiado apertados, excessivamente vivos – queremos estar lá até ao fim, e saboreamos cada segundo do percurso.

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Curta: «Luz Falsa»

“Que o céu exista, mesmo que o nosso lugar seja o inferno.”

Que o inferno seja o nosso lugar, mesmo que o céu exista, se neste nada mais houver do que as sombras alvas de santos falsos, cortinas de pó corridas sobre humanidade testada e perdida; nada escondido, porque nada há a esconder. O vazio. O vazio. O vazio de olhar o outro e não o ver, porque em nós nada existe, porque nunca nos vimos, porque não sabemos ver; porque não há o que ver. Não reconhecer por não conhecer; não compreender por não sentir.

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Curta: «Chaga»

Sinto-o hoje como ontem o via em todos os sítios. Viro-me, e a memória faz-se gente; está lá, respira – aperta e mata. Em casa e na rua, em asfalto e em carris, na cama, na cama, na cama, no mar e no rio, em terra e no ar, de dia e de noite e de madrugada, com uma guitarra a chorar ou eu por ela, sóbria de morte e intoxicada de vida, para cá e para lá das fronteiras deste rectângulo milenar. Pisei com ele todos os chãos que conheço – todos os céus. Nenhum cheiro em mim que nele não esteja também; nenhuma nota nos meus ouvidos que não lhe pudesse ter saído dos lábios. Sabores e sorrisos, lágrimas e cores. Chocolate e pimenta, sal e pimenta. Na pele dele – na minha.

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